terça-feira, março 3

A Menina da Floricultura


Eu andava, como sempre, Sem rumo.Como de costume, parei na velha floricultura. Observava as flores como se fossem jóias.E, para mim, eram. Os pequenos brotos nascendo, para um dia virarem grandes flores.Entrei na loja rolando os olhos para a recepção. Passei pelo pequeno corredor e, enfim, eu estava no lugar certo. Ali tinha todas as flores, de todas as cores. Entrei com cuidado observando as minhas preferidas. Dei "oi" a todas, e sentei-me em um banco.Sentava e ficava conversando com todas. Os murmúrios das minhas palavras só as plantas ouviam.Contava sobre o meu dia e, para não ser mal educada, perguntava como foi o delas. Mas, como sempre, eu ficava esperando por uma resposta que não existia. Jamais elas me responderam. Eu jamais soubera como é o dia delas.Ficava em torno de duas horas por dia ali, conversava com a "Joana's", que era alguns vasos de lírios, "Clara" que ela um pequeno copo-de-leite, e "Maria's" que eram minhas pequenas violetas, todas foram tendo seus nomes com o passar dos tempos.Acabei me apegando, tinha outras amigas, mas elas eram as principais, as minhas melhores amigas.Saí da floricultura e fui em direção à minha casa, onde teria de passar por duas praças e algumas casas, parava sempre na frente de uma casa, para cumprimentar outra amiga minha, ela fora adotada no verão passado e fora plantada na frente de uma casa, com uma fachada de vidro e as paredes de madeira. Elas ficavam na frente de casa, já tinham outros brotos e os velhos já estavam murchos. Abaixava-me diante da calçada para conversar com os lírios. O assunto era quase o mesmo, porém um pouco mais detalhado. Eram minhas amigas de alguns verões já, e a nossa intimidade era maior. Eu não sei há quanto tempo somos amigas, ainda não aprendi todos os meses, mas creio que já fiz aniversário duas vezes, desde o nosso primeiro encontro. A minha sorte de ter estado na floricultura quando foram adotadas, conhecia bem a dona Marta e sabia que iria cuidar bem delas. A hora de falar com as "Anna's" era quase a mesma hora da dona Marta alimentá-las, ela abria a porta sorridente. O regador verde estava em suas mãos, ela chegava dando-me bom dia, falava com as garotas e logo em seguida alimentava-as com a água fresca, vindo direto da torneira da rua. Elas riam baixinho e se refrescavam um pouco, além de se alimentarem, também era a hora do banho delas. Dona Marta se despedia, nos deixando a sós. Eu esperava mais um tempo, elas se acalmarem pós o banho e também me despedi. Meus passos até a minha casa eram longos e rápidos. Não tão longos, mas a maior distância que eu conseguia, e não tão rápidos, mas o máximo que eu podia.Chegava em casa e colocava minha mochila em cima do sofá e ia para a cozinha conversar com meus pais.Aquele dia foi diferente. Meu pai aconchegou-me em seus braços e me deu um abraço apertado.Por alguns segundos a minha respiração foi interrompida. Os olhos inchados da minha mãe mostravam que ela estava sofrendo.Eles lançaram um olhar para mim, eu senti uma angustia. Minha mãe foi logo adiantando, disse que a vovó estava doente. Interrompi. Perguntei se ela tinha partido. O silêncio tomou conta da sala, mas ela negou. Disse que era só uma doença e que logo iria passar.Amanhã eles iriam me pegar na saída da escola. Eu aceitei. Fui dormir.Minha mente não desfocalizava a minha avó, com a pouca quantidade de cabelos grisalhos, os olhos murchos, com a face cheia de expressões. Deitava em uma maca de hospital, respirando por aparelhos,e com aqueles vestidos brancos até os joelhos. Tentei não pensar nisso.Acabei adormecendo, em cima das minhas próprias lagrimas de preocupação.Acordei mais despreocupada, iria fazer uma visita e saberia que ela iria ficar bem. Ela sempre ficava eu poderia contar uma história pra ela.Eu precisava contar tudo para a Clara, vou sair da escola e vou ir na... Vou ir ao hospital.Como vou falar com as meninas? Ah, nossa, eu não tinha pensado nelas, Como pude esquecê-las? Elas vão ficar ruins sem mim. Corri para o telefone e disquei o numero do trabalho da mamãe. Avisei que precisava ir lá, precisava falar com elas. Ela disse que era um motivo fútil, e que elas iriam agüentar, era só um dia sem mim. Pensei melhor, e também achei que era besteira.A manhã passou rápido, fiz as minhas tarefas e olhei a minha sessão preferida de desenhos.Mas a tarde passou lenta, sentia os minutos se arrastarem ao meu lado, as horas nem passavam perto.Achei que elas estavam deprimidas. Por que eu nunca tinha falado com o tempo? Ele poderia estar precisando de água também. Nunca fora aguado por mim, nunca tivemos uma conversa. Depois da aula, minha mãe estava me esperando como de combinado na porta da escola. Pedi pela última vez para ir falar com as meninas, ela negou. Falando que se eu continuasse, iria me proibir de ir na floricultura depois da aula. Entrei no carro sem dizer mais nenhuma palavra. Fiquei um pouco braba com a situação. Mas quando eu cheguei no hospital lembrei que não poderia ficar assim, vovó necessitava da minha água.Conversamos por horas, ela me contou do atendimento das enfermeiras e que estava sendo bem cuidada.Fez um pedido, queria que eu fosse lhe visitar todos os dias, até que ela fosse sair do hospital.Não tive como negar, mas a minha preocupação ainda estava nas minhas amigas. Expliquei tudo para a vovó, ela disse que também tinha algumas amigas e que elas ficariam bem. No último dia, era para eu adotar alguma das minhas amigas e trazê-la para ela. Ela me deu o dinheiro, e eu guardei. Assim fez todos os dias durante duas semanas eu ia direto para o hospital, um dia meu pai no outro a minha mãe me levava. Ficava até a noite lá. Enfim, o último dia. Vovó reforçou o pedido, perguntando se eu tinha gastado o dinheiro dado, há duas semanas.Eu disse que não, havia guardado em um dos meus bolsos, e que acharia assim que chegasse em casa.Ela falou com meu pai, para passar na floricultura. Eu estava animada, iria rever as minhas amigas.Fui para casa ansiosa, não consegui dormir. O que eu falaria primeiro? Estava morrendo de saudades.Será que elas estavam muito furiosas? Acho que não, foi pouco tempo.Entrei na floricultura satisfeita com o tempo. Havia chego o dia da adoção de uma delas, eu nem tinha escolhido quem. Seria a Clara? Ou Maria's? Vovó adoraria as Joana’s. Passei correndo pelo corredor, chegando em segundos ao meu lugar. Onde eu sempre me sentira feliz. Mas, dessa vez não me importei com os olhares da recepcionista, nem rolei os olhos por ela, fui direto procurando elas, procurei pelas mais bonitas, mais coloridas e vivas. E, não encontrei. Deveriam ter mudado de lugar. Procurei por todas as prateleiras, por todos os vasos. Até reconhecer os copos-de-leite, estavam murchos, sem vida. Fui correndo para a balconista e perguntei se ela não havia aguado elas. A garota morena de olhos verdes olhou serena para mim e disse que depois que eu havia deixado de comparecer todos os dias na floricultura, muitas flores haviam morrido.Todas ficavam sem vida e sem cor, os lírios tinham morrido fazia dois dias e as violetas foram hoje pela manha. Meus olhos se encheram de lágrimas, sentei no chão juntando os meus joelhos contra o meu corpo e segurando forte. Elas tinham me abandonado, elas não eram minhas amigas. Por quê? Por que fizeram isso?Os meus soluços foram diminuindo conforme a balconista me aconchegava no seu colo. Consegui ficar melhor e lembrei que meu pai estava me esperando no carro. Eu esqueci os copos-de-leite e fui comprar a única flor que não me agradava, duravam pouco. Peguei algumas rosas avermelhadas na minha mão, e fui para o balcão. A balconista fitou-me por alguns longos segundos e disse que não me poderia vender as rosas, perguntei o por que. E, ela disse que eu não poderia esquecer-se da minha amiga, eu ainda tinha Clara. Ela não me abandonara. Disse que ela era como as outras, e que iria me deixar um dia.Ela disse para mim que não foram elas que me deixaram e que fui eu que havia deixado elas.Lembrei então que eu também havia estado longe, sai do balcão deixando as rosas no caixa.Fui correndo até as prateleiras dos copos-de-leite. Pela primeira vez a Clara falou comigo, ela estava chorando muito. Perguntou por que eu havia esquecido e abandonado ela.Disse que a minha avó estava doente, que eu não pudera ir à floricultura. Me desculpei.Ela disse que só resistiu até essa tarde, porque acreditava em mim, sabia que tinha alguma desculpa.Perguntei se ela queria ir comigo, se ela queria conhecer a minha avó, falei que ela havia pedido uma das minhas amigas de presente. Ela aceitou. Peguei o vaso e dirigi-me até a balconista. Ela não me cobrou, disse que ela só ficaria bem comigo.Insisti. Disse que tinha dinheiro e queria paga-lá. Ela disse que a flor iria morrer mesmo, e que só eu podia salvar ela. Ela sempre fora minha.Agradeci e disse que passaria a vir sempre que possível na floricultura. Ela disse que a minha presença sempre foi muito boa. Talvez as flores não durassem tanto se eu não estivesse ali.Agradeci de novo, mas ela me chamou antes que eu saísse pelo corredor. Suas palavras foram mais suaves que de antes, porém mais maduras."Lembre-se, nem sempre porque suas amigas não falam com você, é porque elas não sentem a sua falta, nem sempre porque você some e elas vão embora, não quer dizer que elas não precisem de você. Cuide da Clara, eu tenho certeza que se você der amor pra ela, ela vai falar mais com você."Agora a minha rotina mudou, vou três vezes por semana na casa da minha avó e duas vezes na floricultura.Tenho amigas novas, mas elas ainda não falam comigo. Também tenho as velhas e fiéis amigas. Dona Marta sempre me deixa ir lá, às vezes eu entro e alimento elas junto com ela.

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